Eu moro em uma casa à 12 anos. Sou muito feliz por isso. Os melhores momentos que passei na minha vida foram nesta casa: churrascos de amigos, as comemorações importantes da família, natal, aniversários, até troca de ovos de páscoa e raspar meu cabelo quando passei no vestibular! É uma casa grande, que agrada a todos que tem a sorte de a conhecer. Piscina, jardim e três moradores que a amam e tem o prazer de a decorar e deixá-la cada vez mais cativante. Eu, minha mãe e minha irmã mais nova.
Infelizmente há um problema, e eu só cheguei a dar importância a este grave problema tarde demais... A casa realmente é atraente e agrada a todos, não só pelo seu porte -pois a casa de frente é bem maior-, mas pelo seu ar acolhedor e carinhoso, como um perfume que pode-se ser sentido a quilômetros de distância. Uma fragrância única, inconfundível. Mas isso não é vantagem, não na nossa sociedade violenta do jeito que está. Ladrões e enganadores farejam incessantemente a procura de uma casa tão perfeita quanto a que vivo.
Já fomos assaltados duas vezes, isso antes de comprarmos uma cerca elétrica e instalarmos um sistema de alarme de alto nível, que tem sensor de calor e de som. Assim os assaltos pararam e chegou a vez de salafrários, mentirosos e caloteiros entrarem em jogo. Fiquei especialista em desconfiar das pessoas.
Parou um rapaz pedindo doação para ajudar no tratamento de crianças com câncer. Ok, tome 20 reais e vá com Deus. Não senhor, ele agradeceu a contribuição mas pediu o número do cartão de crédito do responsável para garantir a agilidade e a garantia da doação, ofereceu até extrato depois! Mas rapaz, o que há de mais ágil, seguro e garantido do que eu lhe dar os vinte reais aqui e agora para o tratamento? Não tem. E assim o deixei plantado olhando para a porta branca do meu portão que acabara de fechar na cara dele, pensando no que havia feito de errado que não conseguira passar a perna em mim para pegar o número do meu cartão.
Certa vez um homem com a farda dos correios veio para verificar os dados cadastrais da minha amada casa. Nada demais, mal desconfiava desse. Até ele me pedir o contrato de compra e venda da casa, a renda familiar e o nome e cpf da minha mãe (proprietária) alegando que o CEP da casa estava errado e precisava checar no contrato- esperteza tremenda do pilantra, já que no contrato realmente tem o CEP- e com esses documentos com certeza ele poderia facilmente alterar o proprietário em cartório e minha mãe deixaria de ser a dona da nossa adorada casinha. Bom, não a nada de errado com o meu CEP senhor, se não eu não teria recebido meu jornal e outras cartas hoje de manhã, então não tem motivo para lhe entregar tais documentos. Ainda está insistindo? Todas as informações que são necessárias eu já informei, passar bem. E aí está, outro safado parado olhando para o lado de fora da porteira do portão (que nesse ponto eu já tinha colocado um adesivo de uma carinha feliz justamente para amenizar a raiva dos pilantras quando isso acontecesse) não conseguindo penetrar na paz e tranquilidade do meu imóvel estupendo. Ainda tiveram outros pilantras que foram atraídos pela fragrância de perfeição que emanava da minha casa, mas não são tão importantes para serem mencionados.
Admito que fui grosso, mas entenda, foi essa a forma que eu achei de proteger minha família, e principalmente, meu templo da felicidade! E funcionava, funcionava bem, mas nenhuma forma que eu encontrei de proteger meu lar e não importava quanta experiência eu tinha em afastar ladrões e caloteiros, ia me preparar para o que estava por vir. Nada iria. Nem mesmo amigos, família ou até armas de fogo. Nada disso me ajudaria a proteger do que estava por vir minha casa. Minha muito, muito atraente casa.
Estava andando descalço e sem camisa confortavelmente pelos corredores estreitos e curtos do andar de cima. Tudo apagado, do jeito que eu sempre gostei. Ia forçando a vista para ver naquela escuridão intercalada com fios de luz dos postes que atravessavam as janelas quadradas dos banheiros. A sede de madrugada que geralmente me consumia atacara de novo e apesar de confiar totalmente na minha casa, sempre olhava para os lados e para trás. Acho que vi muitos filmes de terror na infância, porque a cada resvalar de folhas lá fora incitava na minha imaginação alguma cena assustadora e impossível de acontecer na vida real.
Apesar de amar minha casa uma coisa era inegável sobre ela, era terrivelmente macabra a noite. Várias árvores incessantemente criando formatos estranhos com suas sombras, que acompanhadas com o suspiro de uma janela semiaberta com o vento gentilmente passando e criando um som agudo criava o perfeito cenário para um ambiente aterrorizante. Apesar disso tudo superei meu medo e consegui descer um andar olhando fixamente para frente para beber minha água. O problema mesmo é voltar. Aviso logo caro amigo, não sou do tipo que sente medo da própria sombra, diria até que sou corajoso, mas a volta era demais para mim. Saí da cozinha já com vontade de ir no banheiro fazer xixi, mas não, não iria no banheiro lá de baixo ia no do próprio quarto. Saí da cozinha e cheguei na sala principal.
Não gostava de olhar para trás ali, sempre tinha um susto. Na parte de trás da sala de estar tinha um jardim, cuidadosamente protegido por uma espécie de parede de vidro que corria para os lados. Sempre que eu olhava para lá de noite e me via, distorcido e com coisas verdes balançantes atrás no mínimo meu coração acelerava, mas isso ainda era aceitável. O motivo real do porque de eu não gostar de passar por aquela sala pra subir de noite era o banheiro. O primeiro fato que me incomodava, sempre a porta estava aberta, sempre. Outra coisa, tinha um ar macabro dali de dentro, como se tivesse gelado ou com névoa. E a mais importante: não sabia o que causava aquilo, mas todas as vezes que eu passava por lá via a silhueta de um homem. Sim, de um homem. Não sei como sabia que não era silhueta de uma mulher (já que geralmente vultos são indistinguíveis), nem de criança, nem de outra coisa, mas de um homem. E o mais aterrorizante de tudo, ele olhava fixamente pra mim.
Hoje, como todas as outras vezes passei olhando para o chão para evitar ver aquela ilusão de ótica provinda do inferno e de qualquer fator ambiental que a fizesse aparecer. Não sabia se era a sombra da toalha ou algo assim, a luz do banheiro fazendo contraste com o espelho, já fiz muitas hipóteses sobre o assunto, mas todas incertas. O fato era que a sombra masculina estava lá, constantemente a espera de um olhar despreparado para o lado. Se a porta do banheiro se mantivesse fechada a sombra desapareceria, mas sempre a porta ficava aberta. E eu não entendia como, havia dias que eu me levantava de uma hora da madrugada, tomava coragem ia no banheiro lá da sala mesmo e fechava a porta. Voltava de duas e a porta estava aberta com a sombra infernal me olhando fixamente de novo. Mal sabia eu que isso era culpa do que nós mais prezávamos na casa, ela atraia muito a todos.
Minha namorada e eu estávamos juntos no quarto de minha mãe vendo filme na TV. Sempre que não tinha ninguém em casa ela aparecia por lá para nós aproveitarmos nossa privacidade. Esse dia em particular eu estava com um ótimo humor e querendo fazer algo que a impressionasse, porém, não por muito tempo. Outra vez minha sede implacável de madrugada bateu, dessa vez até mais tarde. Três da manhã. Falei a ela que iria descer para pegar água, ela disse que ia me acompanhar. Altamente medrosa, e eu galanteador fiquei tentando a assustar apagando as luzes, fazendo barulhos estranhos e até indo pro lado de fora e deixando-a sozinha na cozinha por alguns momentos. Acho que acabei levando a brincadeira a sério demais para impressioná-la.
“Vamos subir de volta amor, por favor, está muito frio aqui embaixo e eu estou com medo”. Dizia ela já agarrada no meu braço. Eu, aproveitando a chance fiquei mais corajoso ainda. “Vamos sim, mas tenho que te mostrar uma coisa antes.” Olhando em retrospecto eu deveria saber que tinha algo errado desde o momento em que estava frio na paraíba, mas fui ingênuo demais e tinha mais coisas para me preocupar no momento.
Olhe, sem querer fazer medo a você, mas toda vez que passo aqui de luzes apagadas eu vejo a sombra de um homem ali – e apontei para o banheiro. Relaxe princesa, eu estou aqui, nada vai acontecer não. E num acesso de coragem apaguei as luzes. Como eu disse antes, nada que tivesse feito até então me prepararia para aquela estupidez de minha parte. Nada. Nós dois que estávamos olhando para o interruptor quando as luzes foram apagadas desviaram o olhar quase sem querer para o banheiro (que, claro, estava aberto).
Ma... ma... mas amor, realmente tem um homem alí! Paralisado e ignorando o que ela tinha falado, olhei com mais afinco para a sombra projetada na entrada do banheiro. O ar estava gelando a espinha e algo parecia errado. A sombra estava diferente. Tinha a mesma silhueta masculina de sempre, mas agora estava com uma áurea negra fumacenta circundando-a e, depois de passar um segundo olhando duas esferas azuis se abriram onde supostamente seriam os olhos na face da silhueta.
Minha namorada e eu não tivemos reação instantânea, ficamos sem acreditar naquilo, se realmente estava acontecendo algo ou se estávamos sendo enganados por nossos olhos. Tivemos quando a coisa começou a sair do banheiro.
Um grito foi a primeira reação, um grito vindo do interior da alma da minha namorada. Agudo, desesperado, sem esperança. Aquilo me acordou e aparentemente fez algum efeito no fantasma do inferno. Tentei abrir a porta da escada, trancada. Olhei de volta para o banheiro e a coisa já estava na metade do caminho para chegar na minha namorada. Ela estava olhando em choque para a aura infernal preta e chorando, não acho nem que sabia onde estava. Peguei-a pelo braço e corri tentando abrir a porta da cozinha. Em vão, a coisa já estava entre a mesa de jantar da sala e a porta da escada, impedindo a passagem para a saída da garagem. Corri puxando minha namorada e arrodeando a mesa, para chegar a antessala que dava para o portão e para o lado de fora da casa. A coisa estava mais rápida e voou por cima da mesa. Coloquei minha namorada num compartimento secreto atrás do bar da antessala, mandando ela parar de chorar. Não sabia se a coisa conseguia escutar algo, mas rezei para que não ou esse seria o fim da minha querida. Olhei em volta procurando algo para me defender, mas o que poderia possivelmente me defender de uma entidade sobrenatural?! Uma cruz? Uma estátua de Santo Agoustinho? Tinha os dois a disposição, mas preferia não arriscar. Olhei para a porta de vidro, sabia que como as outras portas essa estava trancada também, olhei para trás e lá estava, a entidade tinha acabado de entrar na sala me olhando fixamente com aquelas esferas azuis brilhantes e esfumaçadas. Fiz o que acho que era minha única escolha, corri em direção as duas portas de vidro, reuni toda a força de tinha e me joguei para cima delas. As duas portas de vidro se quebraram em um barulho tão alto que deu para ser ouvido por todos os vizinhos. Cai no chão um metro a frente, rolando junto a um milhão de cacos de vidro com plástico fumê colado neles, daí em diante minha memória fica confusa.
Lembro que senti muito frio, senti algo molhado embaixo de mim, provavelmente uma poça do meu próprio sangue. Lembro de ter olhado para esquerda e visto a piscina, desnorteado e enfim lembrando de toda a situação juntado o resto das minhas forças e olhado para frente. De minha visão deu para ver minha pequena princesa agachada no compartimento do bar chorando e apontando para algo que eu não via. Reagrupei o foco da minha visão, olhei para onde ela estava apontando e vi de novo a entidade chegando mais e mais perto. Senti o maior calafrio na espinha que alguém já sentiu na vida e desmaiei. E como último pensamento, olhando para minha amada casa sendo atacada de dentro para fora por aquela monstruosidade foi “Afinal minha casa é atraente até para fantasmas”. Essa foi minha última memória daquele dia.
Minha namorada atualmente reside num sanatório por ter problemas sociais e insistir em dizer que viu uma entidade de fumaça. Ela sempre repete consigo mesma “Aqueles olhos, aqueles terríveis olhos azuis brilhantes”. Meu corpo nunca mais foi visto. Nenhum vestígio foi encontrado, nem sangue, nem DNA, nem impressão digital, nada. A pessoa que poderia comprovar a história toda está insana, consequentemente ninguém acredita nela. Minha irmã e minha mãe continuam a me procurar pelo mundo afora, sem nem ter ideia como.
Acabou que minha casa era atraente demais, até para as outras dimensões. Meu corpo não sei, provavelmente deve estar sendo residido pela alma de olhos brilhantes que me assombrou. Já eu vago por aí. Numa forma desconhecida até por mim mesmo.
Mas uma coisa é certa, adoro residir em banheiros. E vc? Já olhou o seu?
Infelizmente há um problema, e eu só cheguei a dar importância a este grave problema tarde demais... A casa realmente é atraente e agrada a todos, não só pelo seu porte -pois a casa de frente é bem maior-, mas pelo seu ar acolhedor e carinhoso, como um perfume que pode-se ser sentido a quilômetros de distância. Uma fragrância única, inconfundível. Mas isso não é vantagem, não na nossa sociedade violenta do jeito que está. Ladrões e enganadores farejam incessantemente a procura de uma casa tão perfeita quanto a que vivo.
Já fomos assaltados duas vezes, isso antes de comprarmos uma cerca elétrica e instalarmos um sistema de alarme de alto nível, que tem sensor de calor e de som. Assim os assaltos pararam e chegou a vez de salafrários, mentirosos e caloteiros entrarem em jogo. Fiquei especialista em desconfiar das pessoas.
Parou um rapaz pedindo doação para ajudar no tratamento de crianças com câncer. Ok, tome 20 reais e vá com Deus. Não senhor, ele agradeceu a contribuição mas pediu o número do cartão de crédito do responsável para garantir a agilidade e a garantia da doação, ofereceu até extrato depois! Mas rapaz, o que há de mais ágil, seguro e garantido do que eu lhe dar os vinte reais aqui e agora para o tratamento? Não tem. E assim o deixei plantado olhando para a porta branca do meu portão que acabara de fechar na cara dele, pensando no que havia feito de errado que não conseguira passar a perna em mim para pegar o número do meu cartão.
Certa vez um homem com a farda dos correios veio para verificar os dados cadastrais da minha amada casa. Nada demais, mal desconfiava desse. Até ele me pedir o contrato de compra e venda da casa, a renda familiar e o nome e cpf da minha mãe (proprietária) alegando que o CEP da casa estava errado e precisava checar no contrato- esperteza tremenda do pilantra, já que no contrato realmente tem o CEP- e com esses documentos com certeza ele poderia facilmente alterar o proprietário em cartório e minha mãe deixaria de ser a dona da nossa adorada casinha. Bom, não a nada de errado com o meu CEP senhor, se não eu não teria recebido meu jornal e outras cartas hoje de manhã, então não tem motivo para lhe entregar tais documentos. Ainda está insistindo? Todas as informações que são necessárias eu já informei, passar bem. E aí está, outro safado parado olhando para o lado de fora da porteira do portão (que nesse ponto eu já tinha colocado um adesivo de uma carinha feliz justamente para amenizar a raiva dos pilantras quando isso acontecesse) não conseguindo penetrar na paz e tranquilidade do meu imóvel estupendo. Ainda tiveram outros pilantras que foram atraídos pela fragrância de perfeição que emanava da minha casa, mas não são tão importantes para serem mencionados.
Admito que fui grosso, mas entenda, foi essa a forma que eu achei de proteger minha família, e principalmente, meu templo da felicidade! E funcionava, funcionava bem, mas nenhuma forma que eu encontrei de proteger meu lar e não importava quanta experiência eu tinha em afastar ladrões e caloteiros, ia me preparar para o que estava por vir. Nada iria. Nem mesmo amigos, família ou até armas de fogo. Nada disso me ajudaria a proteger do que estava por vir minha casa. Minha muito, muito atraente casa.
Estava andando descalço e sem camisa confortavelmente pelos corredores estreitos e curtos do andar de cima. Tudo apagado, do jeito que eu sempre gostei. Ia forçando a vista para ver naquela escuridão intercalada com fios de luz dos postes que atravessavam as janelas quadradas dos banheiros. A sede de madrugada que geralmente me consumia atacara de novo e apesar de confiar totalmente na minha casa, sempre olhava para os lados e para trás. Acho que vi muitos filmes de terror na infância, porque a cada resvalar de folhas lá fora incitava na minha imaginação alguma cena assustadora e impossível de acontecer na vida real.
Apesar de amar minha casa uma coisa era inegável sobre ela, era terrivelmente macabra a noite. Várias árvores incessantemente criando formatos estranhos com suas sombras, que acompanhadas com o suspiro de uma janela semiaberta com o vento gentilmente passando e criando um som agudo criava o perfeito cenário para um ambiente aterrorizante. Apesar disso tudo superei meu medo e consegui descer um andar olhando fixamente para frente para beber minha água. O problema mesmo é voltar. Aviso logo caro amigo, não sou do tipo que sente medo da própria sombra, diria até que sou corajoso, mas a volta era demais para mim. Saí da cozinha já com vontade de ir no banheiro fazer xixi, mas não, não iria no banheiro lá de baixo ia no do próprio quarto. Saí da cozinha e cheguei na sala principal.
Não gostava de olhar para trás ali, sempre tinha um susto. Na parte de trás da sala de estar tinha um jardim, cuidadosamente protegido por uma espécie de parede de vidro que corria para os lados. Sempre que eu olhava para lá de noite e me via, distorcido e com coisas verdes balançantes atrás no mínimo meu coração acelerava, mas isso ainda era aceitável. O motivo real do porque de eu não gostar de passar por aquela sala pra subir de noite era o banheiro. O primeiro fato que me incomodava, sempre a porta estava aberta, sempre. Outra coisa, tinha um ar macabro dali de dentro, como se tivesse gelado ou com névoa. E a mais importante: não sabia o que causava aquilo, mas todas as vezes que eu passava por lá via a silhueta de um homem. Sim, de um homem. Não sei como sabia que não era silhueta de uma mulher (já que geralmente vultos são indistinguíveis), nem de criança, nem de outra coisa, mas de um homem. E o mais aterrorizante de tudo, ele olhava fixamente pra mim.
Hoje, como todas as outras vezes passei olhando para o chão para evitar ver aquela ilusão de ótica provinda do inferno e de qualquer fator ambiental que a fizesse aparecer. Não sabia se era a sombra da toalha ou algo assim, a luz do banheiro fazendo contraste com o espelho, já fiz muitas hipóteses sobre o assunto, mas todas incertas. O fato era que a sombra masculina estava lá, constantemente a espera de um olhar despreparado para o lado. Se a porta do banheiro se mantivesse fechada a sombra desapareceria, mas sempre a porta ficava aberta. E eu não entendia como, havia dias que eu me levantava de uma hora da madrugada, tomava coragem ia no banheiro lá da sala mesmo e fechava a porta. Voltava de duas e a porta estava aberta com a sombra infernal me olhando fixamente de novo. Mal sabia eu que isso era culpa do que nós mais prezávamos na casa, ela atraia muito a todos.
Minha namorada e eu estávamos juntos no quarto de minha mãe vendo filme na TV. Sempre que não tinha ninguém em casa ela aparecia por lá para nós aproveitarmos nossa privacidade. Esse dia em particular eu estava com um ótimo humor e querendo fazer algo que a impressionasse, porém, não por muito tempo. Outra vez minha sede implacável de madrugada bateu, dessa vez até mais tarde. Três da manhã. Falei a ela que iria descer para pegar água, ela disse que ia me acompanhar. Altamente medrosa, e eu galanteador fiquei tentando a assustar apagando as luzes, fazendo barulhos estranhos e até indo pro lado de fora e deixando-a sozinha na cozinha por alguns momentos. Acho que acabei levando a brincadeira a sério demais para impressioná-la.
“Vamos subir de volta amor, por favor, está muito frio aqui embaixo e eu estou com medo”. Dizia ela já agarrada no meu braço. Eu, aproveitando a chance fiquei mais corajoso ainda. “Vamos sim, mas tenho que te mostrar uma coisa antes.” Olhando em retrospecto eu deveria saber que tinha algo errado desde o momento em que estava frio na paraíba, mas fui ingênuo demais e tinha mais coisas para me preocupar no momento.
Olhe, sem querer fazer medo a você, mas toda vez que passo aqui de luzes apagadas eu vejo a sombra de um homem ali – e apontei para o banheiro. Relaxe princesa, eu estou aqui, nada vai acontecer não. E num acesso de coragem apaguei as luzes. Como eu disse antes, nada que tivesse feito até então me prepararia para aquela estupidez de minha parte. Nada. Nós dois que estávamos olhando para o interruptor quando as luzes foram apagadas desviaram o olhar quase sem querer para o banheiro (que, claro, estava aberto).
Ma... ma... mas amor, realmente tem um homem alí! Paralisado e ignorando o que ela tinha falado, olhei com mais afinco para a sombra projetada na entrada do banheiro. O ar estava gelando a espinha e algo parecia errado. A sombra estava diferente. Tinha a mesma silhueta masculina de sempre, mas agora estava com uma áurea negra fumacenta circundando-a e, depois de passar um segundo olhando duas esferas azuis se abriram onde supostamente seriam os olhos na face da silhueta.
Minha namorada e eu não tivemos reação instantânea, ficamos sem acreditar naquilo, se realmente estava acontecendo algo ou se estávamos sendo enganados por nossos olhos. Tivemos quando a coisa começou a sair do banheiro.
Um grito foi a primeira reação, um grito vindo do interior da alma da minha namorada. Agudo, desesperado, sem esperança. Aquilo me acordou e aparentemente fez algum efeito no fantasma do inferno. Tentei abrir a porta da escada, trancada. Olhei de volta para o banheiro e a coisa já estava na metade do caminho para chegar na minha namorada. Ela estava olhando em choque para a aura infernal preta e chorando, não acho nem que sabia onde estava. Peguei-a pelo braço e corri tentando abrir a porta da cozinha. Em vão, a coisa já estava entre a mesa de jantar da sala e a porta da escada, impedindo a passagem para a saída da garagem. Corri puxando minha namorada e arrodeando a mesa, para chegar a antessala que dava para o portão e para o lado de fora da casa. A coisa estava mais rápida e voou por cima da mesa. Coloquei minha namorada num compartimento secreto atrás do bar da antessala, mandando ela parar de chorar. Não sabia se a coisa conseguia escutar algo, mas rezei para que não ou esse seria o fim da minha querida. Olhei em volta procurando algo para me defender, mas o que poderia possivelmente me defender de uma entidade sobrenatural?! Uma cruz? Uma estátua de Santo Agoustinho? Tinha os dois a disposição, mas preferia não arriscar. Olhei para a porta de vidro, sabia que como as outras portas essa estava trancada também, olhei para trás e lá estava, a entidade tinha acabado de entrar na sala me olhando fixamente com aquelas esferas azuis brilhantes e esfumaçadas. Fiz o que acho que era minha única escolha, corri em direção as duas portas de vidro, reuni toda a força de tinha e me joguei para cima delas. As duas portas de vidro se quebraram em um barulho tão alto que deu para ser ouvido por todos os vizinhos. Cai no chão um metro a frente, rolando junto a um milhão de cacos de vidro com plástico fumê colado neles, daí em diante minha memória fica confusa.
Lembro que senti muito frio, senti algo molhado embaixo de mim, provavelmente uma poça do meu próprio sangue. Lembro de ter olhado para esquerda e visto a piscina, desnorteado e enfim lembrando de toda a situação juntado o resto das minhas forças e olhado para frente. De minha visão deu para ver minha pequena princesa agachada no compartimento do bar chorando e apontando para algo que eu não via. Reagrupei o foco da minha visão, olhei para onde ela estava apontando e vi de novo a entidade chegando mais e mais perto. Senti o maior calafrio na espinha que alguém já sentiu na vida e desmaiei. E como último pensamento, olhando para minha amada casa sendo atacada de dentro para fora por aquela monstruosidade foi “Afinal minha casa é atraente até para fantasmas”. Essa foi minha última memória daquele dia.
Minha namorada atualmente reside num sanatório por ter problemas sociais e insistir em dizer que viu uma entidade de fumaça. Ela sempre repete consigo mesma “Aqueles olhos, aqueles terríveis olhos azuis brilhantes”. Meu corpo nunca mais foi visto. Nenhum vestígio foi encontrado, nem sangue, nem DNA, nem impressão digital, nada. A pessoa que poderia comprovar a história toda está insana, consequentemente ninguém acredita nela. Minha irmã e minha mãe continuam a me procurar pelo mundo afora, sem nem ter ideia como.
Acabou que minha casa era atraente demais, até para as outras dimensões. Meu corpo não sei, provavelmente deve estar sendo residido pela alma de olhos brilhantes que me assombrou. Já eu vago por aí. Numa forma desconhecida até por mim mesmo.
Mas uma coisa é certa, adoro residir em banheiros. E vc? Já olhou o seu?
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